
Quanto CO₂ uma estrutura de madeira realmente armazena e por quanto tempo
Cerca de uma tonelada por metro cúbico. O número é real e verificável, mas ele só se sustenta se o projetista souber de onde vem e onde se perde.
Toda apresentação sobre construção em madeira passa pelo mesmo slide: a floresta absorve CO₂, a árvore vira viga, a viga vira edifício, o carbono fica guardado. O diagrama é correto. O problema é que ele costuma ser usado como argumento de venda e quase nunca como critério de projeto — e é essa diferença que separa um edifício em madeira de um edifício em madeira de baixo carbono.
De onde sai o número
O estoque de carbono da madeira não é estimativa de marketing: é estequiometria.
A massa seca da madeira contém cerca de 50% de carbono, e cada quilo de carbono oxidado corresponde a 3,67 kg de CO₂ (razão 44/12 entre as massas molares). Para uma conífera com massa seca da ordem de 475 kg/m³:
475 × 0,50 × 3,67 ≈ 870 kg de CO₂ por metro cúbico
Daí a ordem de grandeza consagrada de ≈1 tonelada de CO₂ por m³, ou cerca de 1,64 kg de CO₂ por kg de madeira, o valor de referência quando não há dado específico de produto. A densidade é a variável dominante: o eucalipto usado em boa parte da MLC nacional empurra esse número para cima. Um pórtico de MLC com 60 m³ carrega, portanto, algo em torno de 50 toneladas de CO₂ imobilizadas. Isso é dado de projeto, não slogan.
Colheita não é emissão: é transferência
O ponto que mais gera ruído em reuniões técnicas é a colheita. Ela não libera o carbono estocado: transfere o carbono da floresta para o produto. Muda o reservatório, não o balanço.
Duas consequências práticas:
A floresta manejada captura mais do que a floresta madura intocada. O que determina a taxa de captura é o incremento médio anual, não o volume acumulado. Um povoamento maduro tende à saturação: mortalidade, decomposição e fogo passam a devolver à atmosfera aproximadamente o que ele fixa. Colheita seguida de replantio reabre a frente de crescimento.
Rastreabilidade é condição, não bônus. Todo esse raciocínio colapsa se a madeira vier de supressão sem reposição. Sem certificação de manejo ou cadeia de custódia documentada, o estoque de carbono do edifício não passa em nenhuma verificação de ACV séria.
A parte da conta que o projetista controla
O carbono biogênico é contabilizado à parte na EN 15804. O que entra nos módulos A1–A3 é a emissão fóssil do produto: colheita mecanizada, transporte de toras, secagem e adesivos. É aí que a madeira pode perder o que ganhou na floresta.
Secagem artificial mal dimensionada e alto consumo de adesivo são os dois maiores somadores de carbono fóssil na MLC e no CLT. EPDs de fabricantes diferentes para o mesmo produto variam em fator de dois ou três. Especificar "madeira" não é especificar baixo carbono; especificar um fornecedor com EPD verificada é. Vale a mesma atenção ao módulo A4: em estruturas leves, o transporte responde por uma fração desproporcional das emissões, e fornecedor distante anula vantagem de material.
O estoque tem prazo de validade
Aqui está a parte que raramente aparece no slide bonito: o carbono está estocado, não sequestrado.
O estoque dura o tempo em que a peça existir como peça, ou seja, durabilidade é estratégia de carbono. Detalhe construtivo que protege da umidade, classe de risco corretamente atribuída e projeto para desmontagem não são refinamentos: definem se o carbono fica retido por 50 ou por 150 anos.
Nos módulos C e D, reuso e reciclagem prolongam o estoque; aterro e queima o encerram e devolvem o carbono à atmosfera. Um edifício em madeira projetado para demolição destrutiva desperdiça boa parte do próprio argumento ambiental.
O efeito substituição e seu asterisco
Há ainda o ganho indireto: cada m³ de madeira que substitui concreto ou aço evita a emissão fóssil daquele material. A meta-análise clássica de Sathre & O'Connor (2010) reporta fator de deslocamento médio de 2,1 tC evitada por tC em produto de madeira, com dispersão enorme entre aplicações.
É um número poderoso e frequentemente mal usado: trabalhos recentes mostram que fatores de deslocamento são dependentes do tempo, variam com a dinâmica de carbono da floresta de origem e a decomposição de resíduos e que valores fixos tendem a superestimar o benefício no horizonte de 2050. Use o argumento, com faixa de incerteza declarada.
O que isso muda no seu projeto
O ciclo do carbono da madeira é um requisito de projeto com consequências de detalhamento:
Quantifique o estoque em tCO₂ pelo volume real e pela densidade da espécie — "1 t/m³" não é número para documento técnico.
Exija EPD do fabricante da MLC/CLT. Sem ela, A1–A3 é chute.
Trate durabilidade e desmontabilidade como variáveis de carbono, e registre isso em memorial.
Declare separadamente carbono biogênico e fóssil. Somar os dois é o erro mais comum em relatórios de obras em madeira.
O material chega ao canteiro com uma vantagem que nenhum outro tem. Mantê-la até o fim da vida útil é trabalho de projeto.
A Timberhack projeta estruturas em madeira engenheirada com quantificação de carbono integrada ao dimensionamento.
Referências
IStructE / Arup — Embodied Carbon: Timber (fator de sequestro de 1,64 kgCO₂e/kg; tratamento dos módulos da EN 15804)
IPCC — Good Practice Guidance for LULUCF, cap. 3.2 (fração de carbono padrão da biomassa lenhosa)
Sathre, R.; O'Connor, J. (2010) — Meta-analysis of greenhouse gas displacement factors of wood product substitution, Environmental Science & Policy
Leturcq, P. (2020) — GHG displacement factors of harvested wood products: the myth of substitution, Scientific Reports
Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) — Relatório Anual (área plantada e estoque de carbono do setor no Brasil)